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Pagamento adiantado, à vista e com cérebros em formação!

O alto preço dessa epidemia de ZIKA já começa a ser pago com o capital mais valioso de uma nação, o cérebro em formação dos seus cidadãos do amanhã. Então, o que esperar do futuro dessa nação? A pergunta procede por abranger muito mais do que os 1.800 casos de microcefalia até aqui notificados pela suspeita associação.

É plausível afirmar que o controle do Aedes aegypti depende, além das importantes medidas de iniciativa governamental, de atitudes de toda a população. Em última análise, essas atitudes compreendem habilidades na execução de determinadas funções que requerem a autorregulação do indivíduo, o que em Neurociências denominamos por funções executivas. Ou não precisamos objetivar, planejar e organizar nossas tarefas diárias para mantermos nossa casa limpa e livre de criadouros do mosquito? Ou tomar a iniciativa de fazer tudo isso, estar atento e monitorar a todo o tempo a eficácia dessas medidas? Ou perseverar diante das dificuldades encontradas, inibir comportamentos que possam comprometer essas ações, pensar alternativamente para resolver possíveis problemas? Ou, por fim, manter todas essas informações em mente enquanto executamos outras (memória operacional)?

As habilidades de função executiva, que em conjunto se confundem com o que chamamos genericamente de educação, perpetuam, de forma cruel, a pobreza de um cidadão, de uma família, sua comunidade e, por extensão, de toda uma nação. Crianças de classes D e E apresentam um risco 2,4 vezes (ou 140%) maior de baixo funcionamento executivo do que as de classes A e B 1. Um estudo de follow-up de trinta anos comprova que crianças com pobres funções executivas aos três anos de idade apresentam alto risco de desfechos negativos ao longo da vida como: baixo desempenho em leitura e matemática ao longo do Ensino Fundamental e Médio, pior saúde geral, menores salários, uso, abuso e dependência de drogas, e maior número de atos criminosos2. Evidências diversas concluem que o investimento em programas públicos que educam funções executivas é capaz de reduzir custos sociais das mais variadas ordens, salvando o dinheiro e promovendo a prosperidade de uma nação2-4.

De volta à realidade das nossas novas gerações, é muito difícil não ser pessimista em relação ao curto e médio prazo, seja no controle das epidemias e endemias em curso, seja na expectativa de oferecer-lhes uma pátria verdadeiramente educadora.

  1. Arruda, M. A., Mata, M. F. & Arruda, R. Executive functions, mental health and school performance in preadolescent children: a population-based study submitted (2015).
  2. Moffitt, T. E. et al. A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety. Proc Natl Acad Sci U S A 108, 2693-2698, doi:10.1073/pnas.1010076108 (2011).
  3. Blair, C. & Diamond, A. Biological processes in prevention and intervention: the promotion of self-regulation as a means of preventing school failure. Dev Psychopathol 20, 899-911, doi:10.1017/S0954579408000436S0954579408000436 [pii] (2008).
  4. Blair, C. & Razza, R. P. Relating effortful control, executive function, and false belief understanding to emerging math and literacy ability in kindergarten. Child Dev 78, 647-663, doi:10.1111/j.1467-8624.2007.01019.x (2007).

 


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