Brain4child - Dificuldades na aprendizagem: a visão da Neurociência da Educação

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Dificuldades na aprendizagem: a visão da Neurociência da Educação

Pensando sempre em superar os desafios da educação, deve-se compreender, principalmente, o porquê da existência da dificuldade no aprendizado e a importância da inclusão do aluno com suas singularidades. Assim, por meio dos atuais estudos da Neurociência da Educação, foi possível estabelecer um paralelo entre as objeções na aprendizagem que as crianças apresentam, sendo elas diagnosticadas com algum distúrbio ou não, e a mudança de paradigmas pedagógicos que não se mostram mais tão eficientes em meio à atual sociedade.     

Entrevista de Bruna Moura Calil com o Dr. Marco A. Arruda apresentada ao curso de Letras e Literatura da UNESP Araraquara

  1.    O que é indispensável para que os alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE) possam ser efetivamente incluídos na escola?

 

A meu ver, é indispensável o fim do preconceito. Por incrível que pareça, ainda nos dias de hoje, há pais que não admitem que os filhos estudem numa sala de aula ou escola onde haja deficientes. Eles temem que isso atrapalhe o desenvolvimento da criança, sobretudo seu aprendizado. Pensam apenas na escola como aquisição de informação e não um lugar para desenvolvimento da cidadania.

Vencida essa barreira, a que vem em seguida é a da falta de capacitação dos profissionais da escola para receber alunos com necessidades educacionais especiais. A partir da declaração de Salamanca, do qual o Brasil é signatário, iniciou-se um processo que culminou com a legislação que torna obrigatória a inclusão, no entanto, o governo e a sociedade como um todo não se mobilizou o bastante para facilitar a capacitação dos profissionais da Educação para esse importante fim.

De 2012 a 2014 coordenei um grupo de pesquisadores brasileiros notáveis e escrevemos a “Cartilha da Inclusão Escolar, inclusão baseada em evidências científicas” (download gratuito em www.aprendercrianca.com.br/384-cartilha-da-inclusao-2). Nas últimas semanas chegamos a 40 mil downloads. Esse esforço de profissionais da área da Saúde para capacitar profissionais da Educação é um exemplo de movimentação acadêmica e social em favor da inclusão.

Acho que a sociedade como um todo é responsável pela inclusão e, como disse Nelson Mandela: “Não há revelação mais veemente da alma de uma sociedade do que a forma pela qual ela trata suas crianças."

   2.    Como assisti-las individualmente e incluí-las ao mesmo tempo?
 

Para incluir é fundamental atender a criança individualmente, em sua singularidade e diversidade. Mas vamos mais a fundo!

O paradigma de inclusão que acreditamos não se restringe à criança com deficiência, nem tampouco, de forma mais ampla, àquelas com necessidades educacionais especiais, mas a inclusão de toda criança, em sua vasta diversidade de habilidades e dificuldades. Evidências científicas comprovam essa diversidade, não há como a escola continuar oferecendo “um único sapato para caber nos pés de todas as crianças”. Todo educador sabe do que falo aqui, a diversidade do desenvolvimento infantil é notável, é humana e requer assistência individual. Não falo, obviamente, de um professor para cada aluno, falo de tecnologia e Neurociência na escola, auxiliando o professor a identificar e atender essa diversidade.

  3.   A escola pública ou privada consegue oferecer esses recursos para o processo de inclusão?
 

Apenas uma minoria delas, infelizmente. E olhe que das 121 recomendações que dispomos na Cartilha da Inclusão Escolar, muito poucas requerem recursos de alto custo para a escola. O maior recurso que a escola precisa é vontade de receber e atender essas crianças com estratégias de eficácia comprovada pelas evidências científicas hoje disponíveis. Havendo vontade a capacitação vem como consequência.

Tenho visto muitas histórias de sucesso de inclusão na escola pública pois muitas redes municipais de ensino hoje contam com salas de recursos multifuncionais, auxiliares pedagógicos, professores formados em Libras, etc.

As histórias de sucesso na escola privada dependem fundamentalmente da existência de profissionais conscientizados e capacitados para incluir. Não vejo investimentos significativos da rede privada na capacitação dos seus profissionais. Muitos professores nessa condição pagam do próprio bolso cursos de capacitação em inclusão sem qualquer ajuda da escola e sem qualquer ganho em termos de carreira.

  4.   Pelo custo da educação de uma criança diagnosticada com algum distúrbio ser de 2 a 6 vezes maior, é possível que as escolas públicas se portem indiferentes a essas necessidades?
 

Da mesma forma que ignoram alunos que não aprendem e continuam avançando de ano pela progressão continuada.

Naturalmente existem professores e professores, escolas e escolas, governos e governos... As escolas não podem ficar indiferentes pois a inclusão hoje é obrigatória. Agora, aceitar que um aluno com necessidades educacionais especiais fique “jogado” numa sala de aula sem receber cuidados especiais, sem ter para ele um Plano Educacional Individualizado, isso é inaceitável, nossa sociedade não pode permitir.

A questão da progressão continuada é um problema político, furor por estatísticas que mostrem uma realidade falsa dos nossos estudantes. Isso atende apenas a interesses políticos e econômicos, não atende ao que especialistas nas áreas de Educação e Saúde recomendam. E as consequências você sabe, são desastrosas para toda a sociedade.

  5.   Quais são as dificuldades que uma criança sem nenhuma necessidade especial pode apresentar? A maioria é em função do objeto do estudo, da forma como o professor apresenta esse conteúdo ou por outros fatores?
 

Podem ser várias, desde a questão motivacional, até aspectos educacionais mesmo.

Vejamos o aspecto motivacional. Como bem disse o professor João Pacheco da Escola da Ponte, hoje capitaneando o Projeto Âncora na cidade de Cotia, “hoje temos alunos do século 21, tendo aulas com professores do século 20 com métodos pedagógicos do século 19”! Embora o mundo e as crianças tenham mudado demais nos últimos 50 anos, pouca coisa mudou na sala de aula. Continuamos com o modelo centrado no professor, com aprendizado passivo, transmissão vertical de informações, baixa acessibilidade e interação. Como podemos querer que uma criança completamente imersa no mundo digital que lhe oferece interação, transmissão horizontal de conhecimento e alta acessibilidade tenha motivação numa sala de aula convencional.

Por outro lado vemos uma preocupação crescente no primeiro mundo com esses aspectos propiciando muita pesquisa nessa interface entre Neurociências e Educação. Vemos surgir novos modelos e propostas como o Desenho Universal de Aprendizagem (UDL - Universal Design of Learning), a Educação Baseada em Competências (CBE – Competency-Based Education), e as Flipped Classroom, apenas como exemplos.

Outro aspecto a se destacar é o advento da Educação Baseada em Evidências, um marco para mim de passagem para uma nova era na Educação, como aconteceu com a Medicina na segunda metade do século passado.

É preciso mudar o método pedagógico, as evidências para isso não faltam. Veja a figura abaixo que costumo apresentar em minhas palestras.

Outra boa nova é o advento da Neurociência da Educação!
  6.   As Teorias do Condicionamento afirmam que a aprendizagem se concretiza quando há “conexão entre um estímulo e uma resposta” (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, p.133, 2009) e que se pode aprender por práticas, associações e hábitos. Assim, a repetição pode ser um meio eficaz para crianças que apresentam dificuldades?
  Muitas vezes não, pois essa criança pode ter disfunções em regiões cerebrais responsáveis pela associação, pelos hábitos e práticas, nesse caso não vai adiantar repetir, pois não haverá compreensão nem retenção da informação.
  7.   Porque não é garantida a transferência de conhecimento para novos problemas, mesmo já existindo toda a experiência necessária para se fazer um laço entre as diversas situações?
  Para haver transferência de conhecimento para resolução de novos problemas não basta a experiência prévia, precisa haver flexibilidade cognitiva que é uma função executiva responsável pelo pensar alternativo, pela resolução de problemas através de caminhos diversos.
  8.   Qual a diferença entre as crianças que não apresentam distúrbios, as com TDAH e as com Autismo no quesito da internalização do conhecimento?
 

As evidências científicas atuais mostram que o aprendizado depende fundamentalmente do bom funcionamento do que chamamos funções executivas. Anexei uma cartilha que explica o que são, sua importância no aprendizado e como identificar crianças com dificuldades nessas funções.

Crianças com TDAH e Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam muitas dessas funções deficitárias, comprometendo o sucesso do aprendizado. No TDAH quase todas elas estão prejudicadas, principalmente, objetivar, planejar, focar, iniciar, monitorar, perseverar, flexibilizar e operacionalizar.

O TEA, como o próprio nome diz, é um espectro com graus diversos de comprometimento, desde uma criança que não se comunica de nenhuma forma até outra que grava a lista telefônica de Nova York! Nessa condição o comprometimento do aprendizado é também muito diverso.

  9.   Levando em consideração que pontos de Ancoragem são conhecimentos básicos para iniciar a aprendizagem significativa, alguns distúrbios fazem com que as crianças precisem de mais pontos para entender melhor um novo conceito? Isso ocorre também entre as crianças não especiais?
  Também ocorre mas num grau muito variado, dependendo da condição.
 10.   Pode-se dizer que muitas crianças apresentam dificuldades na absorção do conteúdo transmitido em sala de aula, pois este se apresenta inapropriado para sua faixa etária?
  Hoje existe um outro tipo de furor, o “furor curriculares”, pelo qual técnicos responsáveis pelo currículo escolar em nosso país, que não conhecem o cérebro ou o desenvolvimento infantil, decidem em seus gabinetes aumentar a carga curricular com conhecimentos, muitas vezes, inadequados para a idade da criança que irá recebê-los. A consequência disso: cada vez recebo mais crianças com 5-6 anos de idade no consultório, levadas por pais ansiosos, orientados por professores mal preparados, preocupados que a criança ainda não lê.
 11.   Vygotsky afirma o Outro como alguém fundamental na aprendizagem, pois é quem orienta o processo de apropriação de cultura. Como é essa relação com o outro em crianças autistas?  
 

Evidência científica dessa perspectiva teórica é o que mostra a figura acima, quando uma criança ensina a outra a taxa de retenção da informação é de cerca de 90%.

Em relação às crianças autistas, o comprometimento central é do que chamamos de cérebro social. Entende-se por cérebro social numerosos circuitos cerebrais responsáveis pela nossa interação com o outro havendo comprometimento de numerosas funções como reconhecimento de faces (Teoria da mente: habilidade de  identificar na face do outro sentimentos de tristeza, alegria, reprovação, etc.), empatia, contato visual (circuitos responsáveis pela movimentação ocular), linguagem (verbal e não verbal), reconhecimento da privacidade alheia, etc. Considerando o conceito de espectro, o comprometimento de cérebro social pode ser desde muito leve como na Síndrome de Asperger, até muito grave como no Autismo de Kanner.

 12.   A diferença de apropriação do mundo a partir da relação com o Outro já se dá de forma diferente entre as crianças com distúrbio e as sem, desde o nascimento?
 

Sim, dependendo do transtorno de desenvolvimento em questão.

 13.   O senhor concorda que “o bom ensino é aquele que se volta para as funções psicológicas emergentes potenciais, e pode ser facilmente estimulado pelo contato com colegas que já aprenderam determinado conteúdo” (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, p.143, 2009)? 
  Concordo, mas para mim o bom ensino é muito mais abrangente. Essas funções psicológicas emergem em momentos diversos nas crianças, tenham elas um desenvolvimento típico (“normal”) ou atípico. Dessa forma o bom ensino deve contemplar a diversidade infantil estimulando as habilidades e reabilitando as dificuldades de cada criança em cada momento de aprendizado. As ações de ensinar que ocorrem dentro desses paradigmas e que têm o suporte da participação dos colegas via de regra são eficazes e consistentes.
 14.   O que seria aprender ativamente? (Texto “Neurociência Revolucionando a Educação”)
 

Alguns exemplos abaixo:

Leia o artigo Neurociência Revolucionando a Educação (clique aqui)
 15.   Pode ser que as concepções neurológicas sobre educação mudem? Quais novas descobertas podem surgir?
  Observe que estão em rápida transformação desde a década de 90 que foi denominada a década do cérebro e muitas descobertas foram feitas revelando como o cérebro da criança se desenvolve e aprende e o que podemos fazer para favorecer esse processo. Em 2006 foi criada a International Mind, Brain, and Education por neurocientistas e educadores da Universidade de Harvard. O racional foi, a partir dos avanços conquistados, desenvolver a interface entre Neurociências e Educação. Aí surge, então, a Neurociência da Educação, um novo ramo das Neurociências que tem como objetos de estudo a Educação e o Cérebro, entendido como um órgão social que pode ser modificado pela prática pedagógica.

Em 2006 me tornei membro da IMBES e introduzi a Neurociência da Educação no Brasil criando a COMUNIDADE APRENDER CRIANÇA (www.aprendercrianca.com.br) uma comunidade acadêmica, virtual, gratuita e que hoje já conta com mais de 6 mil membros em todo o território nacional.

 


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