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As pessoas fazem o lugar

Nem os 7 graus das 7 horas da manhã desse domingo impediram que eu assistisse às últimas sessões desse muito bom 5º Mundial de TDAH que se encerra hoje aqui em Glasgow. Guarda-chuva em mãos , pois aqui chove, e como chove! Isso nem de longe impediria que os jovens voltassem de suas baladas para casa com segurança, andando pelas ruas aparentemente bem comportados, nem que os corredores de todas as idades, de shorts e camiseta, iniciassem seu ritual de transe em movimento.

David Coghill apresentou vasta revisão da literatura com metanálise que avaliou a possível relação causal entre fatores ambientais e TDAH. Entre os fatores ambientais estudados: exposição pré-natal a cafeína, tabaco (ativa e passiva), álcool, medicamentos e drogas ilícitas, estresse psicológico materno, prematuridade, pós-maturidade, baixo peso ao nascimento, complicações da gestação e do parto, reprodução assistida e estação do ano em que ocorreu o nascimento. O renomado Professor de Psiquiatria Infantil da Universidade de Dundee concluiu que não existem evidências suficientes da relação causal entre qualquer um desses fatores e o TDAH, por outro lado, a ocorrência de prematuridade, baixo peso ao nascimento e tabagismo materno durante a gestação contam com evidências suficientes de associação (o que não significa causalidade). O risco duas vezes maior de associação entre exposição pré-natal ao tabaco e TDAH, que encontramos em amostra populacional nacional do Projeto Atenção Brasil, foi o mesmo encontrado na metanálise por ele conduzida.

Guilherme Polanczyk, Professor de Psiquiatria Infantil da Universidade de São Paulo e coautor do nosso pôster premiado nesse mesmo congresso em 2011 em Berlim (“Prevalence of Attention Deficit Hyperactivity Disorder in school-aged children of a poor Brazilian community”), deu prosseguimento com um tema realmente provocante, a possibilidade de o TDAH não ser apenas um transtorno do neurodesenvolvimento. Em associação com um grupo de pesquisadores australianos eles seguiram uma grande coorte de indivíduos e avaliaram a retenção de diagnósticos da infância para a vida adulta e da vida adulta, retrospectivamente, em relação à infância. Muito interessante e até inquietante o fato de muitos adultos com TDAH não terem apresentado manifestações clínicas suficientes para o diagnóstico do TDAH quando crianças! Muito pano para a manga e o Guilherme saiu-se muito bem, as usual!

M. Bellgrove da Universidade de Monash na Austrália encerrou a sessão e a questão que se prontificou a responder com um simples não: Testes farmacogenéticos podem ajudar o clínico a escolher a opção terapêutica mais adequada para seus pacientes com TDAH? Esses testes vêm sendo propagados no Brasil e em todo mundo sem evidências científicas suficientes que justifiquem, atualmente, sua aplicação clínica. A ideia central é que quantificando genes relacionados a receptores de dopamina e noradrenalina em um determinado paciente, seria possível definir qual a melhor medicação para ele... Aula magistral em que vários aspectos farmacogenéticos do TDAH puderam ser revisados de forma muito didática.

Vou embora com muito boa impressão de Glasgow e sua gente hospitaleira. Eles dizem com orgulho que “People Make Glasgow” (As pessoas fazem Glasgow)! Que nós, e não nossos políticos, possamos fazer o Brasil, nossa pátria amada, um lugar melhor para todos e especialmente para nossas futuras gerações.


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