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Muito além dos muros da escola

Ter acesso à informação não significa necessariamente estar capacitado a tomar decisões! Não é por dispor na internet de um universo de informações sobre a minha cidade, a escola do meu filho ou como construir uma casa que, automaticamente, estarei habilitado a tomar decisões sobre planejamento urbano, currículo escolar ou a quantidade de concreto necessário para um alicerce seguro. Muito menos aconselhar a Palmirinha quanto ao número ideal de ovos para sua fabulosa queijadinha.

Hoje fico tão perplexo quanto a trinta anos atrás, quando iniciei minha prática clínica, ao ver pais decidindo não tratar seus filhos com diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a revelia da opinião de um especialista.

Nesse primeiro dia do 5º Congresso Mundial de TDAH aqui em Glasgow, mais dados alarmantes vindos de estudos clínicos e populacionais que acompanharam crianças com esse transtorno por anos a fio, até a vida adulta. Dados que se aliam a muitos outros e retratam o impacto do TDAH na vida do portador, de sua família e de toda uma sociedade. Real life!

Anselm Fuermaier da Universidade de Groningen (Holanda) apresentou resultados que confirmam que a gravidade da desatenção é o melhor preditor para baixo desempenho escolar presente e futuro, do que o QI ou a presença de comorbidades na criança com TDAH. Além disso, a superioridade do tratamento multimodal para o melhor desempenho escolar quando comparado ao tratamento não medicamentoso ou medicamentoso puro. Entende-se por multimodal o tratamento que agrega, além da medicação, medidas de psicoeducação (da criança ou adolescente, seus pais e professores), cuidados e adaptações no contexto escolar e social, modificação comportamental por terapia cognitivo comportamental e outras intervenções pontuais quando necessário, como nas áreas de Psicopedagogia, Fonoterapia e Terapia Ocupacional.

Dalsgaard e seu grupo da Universidade de Aarhus acompanharam uma coorte de 1,9 milhões de crianças nascidas na Dinamarca entre 1981 e 2011 até o ano de 2013, identificando nela 32.061 crianças com TDAH. Nesse grupo ocorreram 110 mortes ao longo desse período, representando uma taxa de mortalidade duas vezes maior que os controles sem TDAH, sobretudo nas meninas e por causas não naturais. Os acidentes foram a causa mais comum. A presença de comorbidades como os transtornos de Uso de Substância, Opositor Desafiador e de Conduta aumenta essa taxa de duas a oito vezes. Na ausência de qualquer uma dessas comorbidades a taxa de mortalidade ainda é 50% maior que nos controles sem TDAH. A identificação precoce de crianças com risco ou já preenchendo critérios diagnósticos para esse grave transtorno mental é fundamental, uma vez que o tratamento medicamentoso reduz substancialmente essa taxa a níveis comparáveis aos da população geral.

Dustin Sarver da Universidade do Mississippi encerrou a sessão com dados de uma metanálise que revelam a alta prevalência de comportamentos sexuais de risco em adolescentes com TDAH associados à debut sexual precoce, gravidez indesejada, aquisição e transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, promiscuidade, sexo casual, sexo com desconhecidos e sob efeito de drogas (lícitas ou ilícitas), uso inconsistente de métodos anticonceptivos, entre outros. Os riscos são mais graves para as meninas e para aqueles com baixo nível de escolaridade e desempenho escolar. Entre os fatores de proteção identificados encontram-se o tratamento medicamentoso, especialmente quando multimodal, e o nível de acolhimento da escola e da família em relação ao transtorno.

Apesar de não ter convencido todos que por mim passaram, penso que pelo menos valeu a tentativa, ou como dizem aqui, “Failing means yer playin!”.

 


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