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Muito além da pobreza

As trágicas consequências da desigualdade social aqui ou em qualquer lugar do mundo chocam, desmoralizam e provocam um profundo sentimento de culpa em qualquer cidadão de bem. Fome, violência, segregação e outros tipos violação aos direitos humanos em consequência da pobreza são intoleráveis e requerem ações políticas e sociais urgentes e definitivas.

Tão ou mais cruel é quando tais agressões deixam sequelas irreversíveis, cicatrizes definitivas em cérebros vitimados pela disparidade socioeconômica.

Engrossando uma lista de estudos publicados desde 2012 em jornais de alto impacto (referências abaixo), esse artigo da Nature Neuroscience de março traz mais evidências de que crianças e adolescentes de classes socioeconômicas mais baixas apresentam menor espessura do córtex cerebral em áreas fundamentais para a cognição. As regiões mais afetadas são relacionadas à linguagem, memória e funções executivas.

Analisando a amostra estudada vemos que não se trata de sequela de situações extremas como a desnutrição intrauterina ou a fome, nem tampouco interação de fatores como sexo, idade, raça e genética familiar (foram conduzidas análises genotípicas dos ancestrais). Para os pesquisadores, cuja perícia no trabalho estatístico é admirável, as correlações entre classe socioeconômica e estrutura cerebral (espessura cortical, área total de superfície cortical e volume hipotalâmico) provocam dúvidas inquietantes que o estudo não pode responder, no entanto, podem muito provavelmente estar relacionadas ao nível educacional dos pais com consequente privação de cuidados e estimulação adequada no processo educacional, tornando a criança incapaz de prevenir os efeitos deletérios das experiências e exposições pós-natais negativas (resiliência).

Por se tratar de um estudo transversal, fica a grande dúvida a ser respondida por estudos longitudinais futuros: crianças que saem da situação de pobreza absoluta conseguem modificar sua trajetória cognitiva e remodelar sua estrutura cerebral? Ou essas alterações estruturais e funcionais ficam para sempre, perpetuando tragicamente a pobreza ao longo da vida e das futuras gerações?

Quero estar vivo para conhecer essas respostas, mas, sobretudo, para poder viver em uma sociedade mais justa do que a que vivemos.

http://www.nature.com/neuro/journal/v18/n5/full/nn.3983.html

 

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