Brain4child - Cérebro quente

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Cérebro quente

 “Pavio curto”, “cabeça quente”, “tolerância zero”... Se você já recebeu um desses rótulos precisa ler esse post, se não, deve ler também. Por quê? Porque sim! Qual é a graça? Vai encarar?...Rsrsrsrs...

Brincadeiras a parte, vimos nos posts anteriores um pouco sobre a importância das funções executivas (FE) ao longo da vida, sobretudo na infância onde elas são mais facilmente educadas e estimuladas, bem como sua íntima correlação com desfechos da vida que determinam nosso maior ou menor risco de se realizar e ser feliz.

Em nosso projeto de pesquisa “Decifrando códigos da Educação” com quatro mil crianças do ensino público municipal em São Sebastião do Paraíso (MG), adotamos o paradigma de onze FE: objetivar, planejar, organizar, focar, iniciar, monitorar, perseverar, operacionalizar, flexibilizar, regular e inibir. Grosso modo, enquanto as nove primeiras habilidades encontram-se diretamente relacionadas com o aprendizado (denominadas FE frias), as duas últimas são responsáveis pela regulação emocional e inibição comportamental, em última análise pelo “resfriamento” do nosso cérebro (FE quentes)!

A habilidade de inibir a raiva, controlar os impulsos, domar os desejos e se proteger dos riscos que a impetuosidade humana pode provocar é fundamental para o sucesso na escola e na vida [1]. A falta de inibição que ocorre em jovens com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) provoca um alto risco de acidentes automobilísticos, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez antes dos 18 anos de idade e uso, abuso e dependência de substâncias, para citar apenas alguns desfechos negativos [2]. Sem inibição o indivíduo funciona como um carro sem breque, que, inevitavelmente, vai acabar batendo!

Quando suspeitar que uma criança ou adolescente apresente dificuldades de inibição comportamental? Age impulsivamente, “fora de controle”, incapaz de brecar seu comportamento e reações; a criança é atirada, se envolve em situações de risco; é repetitiva, fala ou pede a mesma coisa repetidas vezes; fala fora de hora e impulsivamente, interrompe os outros, não sabe esperar sua vez; mesmo sabendo a resposta, erra questões por descuido, impulso ou desatenção, entre outros comportamentos disfuncionais.

Regular é a capacidade de controlar a expressão das emoções.

As crianças vêm ao mundo com uma habilidade variada em lidar com as frustrações e a raiva. Aquelas que têm menor habilidade enfrentam dificuldades sérias na vida social, escolar e familiar. Elas têm muita dificuldade para aceitar as críticas, mesmo quando são construtivas, choram por nada e não conseguem manter a atenção em sua meta quando coisas desagradáveis ou inesperadas acontecem. Rapidamente se referem a uma situação como “injusta”. Elas reagem exageradamente quando perdem um jogo ou são repreendidas em casa ou na sala de aula.

Quando suspeitar que uma criança ou adolescente apresente dificuldades de regulação emocional? A criança “faz tempestade em copo d’água”, reage excessivamente a pequenos problemas; explode quando é contrariada; fica nervosa à toa; muda de humor com muita facilidade; frustra-se e chora com facilidade; seus momentos de raiva e choro são intensos, mas terminam logo.

Crianças com baixa regulação emocional e inibição comportamental apresentam risco 11,7 (95%IC 9.5-14.5) vezes maior de problemas de saúde mental e 8.7 (95%IC 7.0-10.7) vezes maior de dificuldades cognitivas [3]!

Em nosso próximo encontro vamos aprender a identificar as FE “frias”!

Esperamos sua opinião no www.brain4child.com.br!

 

  1. Kaufman, C. Executive function in the classroom: practical strategies for improving performance and enhancing skills for all students.,  (Paul H. Brookes Publishing Co., 2010).
  2. Arruda, M. A.    (ed Instituto Glia) (Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2006).
  3. Arruda, M. A., Mata, M. F. & Arruda, R. Executive functions, mental health and school performance in preadolescent children: a population-based study submitted (2015).

 


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