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A neurociência revolucionando a educação

A despeito do expressivo avanço científico e tecnológico ocorrido nas últimas décadas, a educação escolar encontra-se ainda embasada em dois paradigmas que datam do início do século XX: a escola como uma fábrica e o cérebro da criança como uma tabula rasa (1, 2).

O primeiro modelo, inspirado na Revolução Industrial, surgiu da necessidade de educação em massa e com eficiência. O segundo, fortemente influenciado pelas ideias de John Locke (“A filosofia da mente”) e pelo behaviorismo de Thorndike, postulava que a criança nascia sem habilidades mentais inatas e que o conhecimento era adquirido tão somente pela experiência derivada da percepção sensorial, recompensas, punições e repetição.

O notável progresso ocorrido nas duas últimas décadas na compreensão de como a criança se desenvolve e como o cérebro aprende, comprova com evidências científicas robustas, o obsoletismo dessas ideias e, consequentemente, desse modelo.

Por séculos, a prática da Medicina foi uma arte mais influenciada pela esperança e criatividade do que pelo conhecimento científico, realidade completamente transformada pelo advento da Medicina baseada em evidências. O que dizer da arte do ensinar sem nenhum conhecimento sobre como o cérebro se desenvolve e aprende?

Para Rita Levi-Montalcini, Nobel de Medicina e Fisiologia em 1986, o total desconhecimento da estrutura e funcionamento cerebral subjacente aos processos cognitivos da criança impediu, nos últimos séculos, a adoção de práticas educacionais mais pertinentes e eficazes. Para a neurologista italiana, nesse início do terceiro milênio as grandes mudanças e novos desafios da humanidade, o advento da tecnologia da informação e o expressivo avanço das Neurociências no conhecimento do cérebro infantil tornam inadiável a revisão dos sistemas didático e educacional.

A mudança de paradigma é urgente. O modelo de ensino tradicional, embasado na transmissão passiva de conhecimento a partir do professor ou dos livros textos para a memória da criança, deve ser substituído pela conscientização da criança de suas habilidades de aprender ativamente através da experiência direta. Essa propriedade de aprender ativamente advém de circuitos neocorticais que se desenvolvem de forma exuberante a partir do nascimento e podem ser estimulados pela prática pedagógica e educacional (3).

A proposta mudança de paradigmas consiste em habilmente agregar os conhecimentos advindos das Neurociências e do método científico aos pilares da Pedagogia, em suas vertentes éticas, sociopolíticas e antropológicas (4).

A partir da década de 90, também denominada década do cérebro, o desenvolvimento de novas tecnologias que facilitaram o conhecimento da estrutura e funcionamento cerebral, provocou uma verdadeira avalanche de descobertas. A neuroimagem funcional, por exemplo, permitiu aos pesquisadores analisarem quais circuitos e áreas cerebrais são ativadas durante os processos de leitura, cálculo, atenção e memorização. A genômica, por sua vez, tornou realidade a identificação de pré-escolares com alto risco para dificuldades em leitura, linguagem e matemática, permitindo intervenções precoces e eficazes (5). Como esperado, além de entender o funcionamento normal desses processos, esses avanços viabilizaram a melhor compreensão do patológico e, consequentemente, uma maior precisão e eficácia no diagnóstico e tratamento/reabilitação dos transtornos específicos de aprendizagem (p. ex., Dislexia e Discalculia) e do desenvolvimento infantil (p. ex., Transtorno do Déficit de Atenção e Autismo).

Em 2006, motivados pela missão de desenvolver a interface entre as Neurociências e a Educação, um grupo de neurocientistas da Harvard e de outras universidades americanas fundou a International Mind, Brain, and Education Society (http://www.imbes.org/ ), marco do advento da Neurociência da Educação, um novo ramo das Neurociências que tem como objetos de estudo a educação e o cérebro, esse entendido como um órgão social que pode ser modificado pela prática pedagógica e educacional.

Para o desenvolvimento dessa interface, os neurocientistas devem verificar se os conhecimentos advindos de experimentos em laboratórios são aplicáveis e eficazes na vida real da escola e da sala de aula, bem como os educadores avaliarem a eficácia de práticas educacionais sob a luz do método científico e dos novos conhecimentos das Neurociências sobre o cérebro infantil (6).

A construção de pontes entre as Neurociências e a Educação já está viabilizando o trânsito livre e intenso de informações que, por fim, resultará na transformação histórica da prática pedagógica (4).

A interpretação e aplicação adequada das pesquisas em sala de aula, bem como suas implicações para o aumento da eficácia do ensino são muito bem vindas pelos educadores que procuram maneiras de dar vida a currículos cada vez mais compactados que devem cobrir as exigências de testes padronizados (7).

Referências

  1. Bennett KP, LeCompte MD. How schools work: A sociological analysis of education. New York: Longman; 1990.
  2. Lillard AS. Montessori: the science behind the genious. New York: Oxford University Press; 2008.
  3. Levi-Montalcini R. Towards a new pedagogical and didactic approach. In: Battro AM, Fischer KW, editors. The Educated Brain Essays in Neuroeducation. Cambridge, UK: Cambridge University Press; 2008. p. xxi-xxiv.
  4. Battro AM, Fischer KW, Léna PJ. Preface. In: Battro AM, Fischer KW, editors. The Educated Brain Essays in Neuroeducation Cambridge, UK: Cambridge University Press; 2008.
  5. Grigorenko EL. How Can Genomics Inform Education? Mind, Brain, and Education. 2007;1(1):20-7.
  6. Shonkoff JP, Phillips DA. From neurons to neighborhoods: The science of early childhood development. Washington, DC: National Academy Press 2000.
  7. Willis J. The current impact of neuroscience on teaching and learning. In: Battro AM, Fischer KW, editors. The Educated Brain: Essays in Neuroeducation Cambridge, UK: Cambridge University Press; 2008.

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