Brain4child - Sobre cães e penas

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Sobre cães e penas

Que má sorte daquele pastor alemão! Era 1967 e um grupo de cientistas da Universidade da Pensilvânia resolveu colocar no cão uma coleira eletrificada que a intervalos de tempo disparava choques fazendo o pobre animal pular e ganir de dor. No início do experimento ele até lutou tentando se livrar da terrível condição, mas, com o passar daqueles intermináveis dias e noites, percebendo que sua luta era em vão, desistiu. Desistiu porque fora dada a ele uma mensagem bem clara, a dor não iria cessar e os choques continuariam para sempre.   

Retirada a coleira, o animal foi levado para um quadrilátero de metal dividido em dois compartimentos, em um os choques continuavam, no outro não. Entre os dois compartimentos foi colocada uma barreira facilmente transponível, caso o animal decidisse trocar de lado. Para surpresa dos cientistas e contra a hipótese vigente à época (do behaviorismo de Skiner), o cão permaneceu ganindo no compartimento dos choques, foi incapaz de aprender que pulando a barreira escaparia da dor. Apesar da atrocidade com o cão, esse famoso experimento conduzido pelo psicólogo americano Martin Seligman trouxe importantes contribuições para a Psicologia moderna. O modelo, denominado “desamparo aprendido” (learned helplessness em Inglês), foi estudado em sobreviventes de campos de concentração da Alemanha nazista e em indivíduos submetidos à tortura. Posteriormente, também foi validado em comportamentos humanos reativos ao estresse e em transtornos mentais como depressão, ansiedade e neuroses.

Sob a perspectiva do desamparo aprendido podemos dizer que o pior tipo de estresse é aquele que gera a sensação de impotência, ou seja, a impressão de que nada podemos fazer. Nessas condições células nervosas são mortas pelo cortisol, o hormônio do estresse, e nosso cérebro torna-se “lento”, incapaz de elaborar estratégias, controlar reações e resolver problemas. Tudo para piorar ainda mais a situação.

Se avaliarmos bem, essa sensação de impotência nada mais é que uma crença estabelecida sem o controle de todas as variáveis, totalmente relativa e repleta de emoções. Se não racionalizada pode fazer o indivíduo desistir, capitular como fez o pobre cão.

Por essas e por outras, continuo acreditando que para tudo há solução, para tudo há esperança, prova disso é a trajetória vitoriosa da humanidade.

Lembrando Emily Dickinson: “Esperança” é a coisa com penas... Que se aninha na alma... E canta a melodia sem letra... E nunca pára – nunca...”


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